
Era pra ser apenas mais uma madrugada insone, que deveria se arrastar até o sol nascer trazendo consigo um novo dia que deveria ser exatamente igual ao anterior e depois mais uma madrugada e assim sucessivamente, até um ponto que eu não posso definir, onde o ciclo se encerra. Mas acabei por dedicar-me a arte do pensamento e me vi entrando por caminhos desconhecidos, repletos de idéias desconexas, mas que, apesar disso, formaram uma teia de coisas que fazem muito sentido. A vida tem dessas coisas, às vezes aquilo que menos parece fazer sentido é o que mais faz, às vezes é o contrário. São essas contradições que dão cor ao mundo e fazem as coisas mais bonitas. Enfim, como ia dizendo, me embrenhei nos caminhos do pensamento, discorrendo cá com meus botões sobre verdades latentes, relativas ao ser humano. E no meio dessa confusão de idéias e reflexões me peguei analisando o amor. É um clichê sem comparações analisar o amor, mas o amor nada mais é que um grande clichê, então eu segui em frente e conclusão de todo esse exercício de pensar, ponderar e analisar foi que o amor é uma merda. Menotti del Picchia estava certo, “não amar é sofrer, amar é sofrer mais”, logo, não há escapatória. Diante disso, eu tracei um paralelo entre a vida e o amor que me parece bastante pertinente já que a vida também é uma merda, mas mesmo assim nós vivemos. Alguns dias são melhores, outros são piores, mas no fim das contas nada disso importa. O que importa é suportar o que vier até que chegue o fim – que talvez seja apenas um começo – suportar sim, porque o caminho nunca é fácil e o final só é feliz se você parar a história antes do fim. Assim, considerando todas as intempéries, é natural que acabemos nos sabotando e buscando diversos caminhos autodestrutivos e é aí que entra o amor, pois o amor é o mais nocivo dentre todos os comportamentos autodestrutivos que alguém pode ter. Indo mais além, a vida em si é autodestrutiva, uma vez que todos caminhamos para a morte certa. E aí está mais uma semelhança que aproxima mais ainda as duas coisas.
Tudo isso parece muito confuso, mas é simples se você dedicar algum tempo a analise e compreensão do mundo ao seu redor. Ou não, porque na verdade tudo é muito confuso, principalmente porque as pessoas se preocupam muito em explicar o que acontece, sem antes procurar entender. Somos todos especialistas em falar sem saber de coisa nenhuma. Eu mesma, na maior parte do tempo, não faço ideia do que estou falando. Ser o gênio por trás de uma teoria revolucionária é o sonho de todo ser humano e não deixa de ser um sonho inteligente. Todas as teorias revolucionarias que tivemos até o tempo presente não passam de obviedades ditas como se fossem fruto de uma grande reflexão. Cada vez mais eu me convenço de que as coisas simplesmente são, de que tudo no mundo é independente e auto-suficiente e que nós só inventamos Deus e as ciências para podermos criar grandes explicações e nos sentirmos mais no controle da vida. Isso é curioso, porque toda vez que julgamos ter tomado definitivamente as rédeas a vida vem e nos dá uma rasteira seguida de um sorriso zombeteiro que nos lembra que nós só controlamos até onde ela nos permite, mas a brincadeira acaba na hora que ela decide e nessa hora o fim é definitivo. Essa, aliás, é uma palavra de significado forte que geralmente é mal empregada. Será que algo é assim tão definitivo a ponto de ser julgado… definitivo?! É assim também com o infinito. Será que existe algo não eterno, inacabável, que seja infinito? Só sabemos se algo é de fato definitivo quando isso muda e quando muda, imediatamente deixa de ser definitivo, interessante, não?!
A graça de se dedicar a refletir sobre a metafísica é que um assunto leva a outro e os dois juntos não levam a lugar nenhum. E aí, novamente, pode-se se traçar um paralelo com a vida onde uma coisa leva a outra e no fim não chegamos a lugar nenhum ou a um lugar comum, mas isso só sabe quem chega lá. Eu gostaria de saber antes. Na verdade, em vários momentos me pego pensando sobre isso. O que será que vem depois que todos os depois já vieram? É intrigante. Algumas pessoas chegam a pensar que compreender a morte é o segredo para entender a vida. Eu, particularmente, não consigo ver relação entre as duas coisas, mas o pensamento é livre. De qualquer forma, é engraçado que a nossa única certeza na vida seja o motivo das nossas maiores dúvidas. Algumas pessoas passam a vida tentando descobrir as respostas, seja através da ciência, da religião ou de qualquer outra crença que tenham, e no final se dão conta de que descobririam de qualquer jeito, mesmo que dedicasse a vida ao ócio. Outras pessoas fecham os olhos para as dúvidas e quando chega a hora de descobrir ficam com tanto medo que acabam por não enxergar nada. Há também aqueles que passam a vida tentando fazer tudo certo, seguindo a cartilha de quem lhe parecer mais sincero ou verdadeiro e esperando que no final haja algum tipo de recompensa. Estão todos errados. Assim como está errado aquele que não segue nenhum deles e se dedica apenas a viver. Estão todos errados porque não existe um jeito certo de viver, não existe fórmula, nem mágica e nem perfeição. Tudo é do jeito que é, porque é e ponto e pensar assim não é conformismo, é realismo e aceitação.
Essa era uma ideia pra um livro ou algo nesse sentido que acabou se perdendo. Encontrei por acaso ontem enquanto revirava os arquivos antigos do note. Talvez eu retome essa ideia, talvez não. Enfim..